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November 22
O oceano é apenas
uma gota d’água
se comparado ao tamanho
da minha sede.
Por dentro, eu sinto,
sou maior que o universo
que, por sua vez,
é maior do que eu penso.
Mas eu moro aqui fora,
na varanda de minha casa.
Não sei quem sou lá dentro.
Pouco ou nada me conheço.
Este que sou ou pareço
é apenas o que imagino ser.
Somos sementes
lançadas sobre a Terra,
e a Terra é um grão
semeado no espaço.
Sementes que se aprendem
à medida que brotam e crescem.
Pouco ou nada
sabemos de nós mesmos,
apenas fazemos de conta
que tudo sabemos.
Por isso, fiz o que fiz:
abandonei ser mestre
e só fiquei aprendiz.
(wy)* November 12
A vida é um vaso de vidro
que a gente carrega,
muitas vezes, distraída,
sem se dar conta que o leva.
É um vaso de vidro,
de paredes finas,
mais finas que casca de ovo,
transparente, quase invisível,
mas, se cair, quebra
e, se quebrar, não se refaz.
Dentro dele há sonhos,
amanhãs, alegrias e mágoas
e mais o quê
a gente que é a gente
não sabe dizer.
Nós somos de vidro,
nós somos o vaso
e estamos nas mãos
de quem amamos.
wy*
November 04

Quem ousa
estar aberto como o deserto
sem caminhos definidos?
Sem conceitos prontos
ou razões emprestadas,
sem pedir caronas
que nos levam a nada...
Quem ousa
optar pela folha em branco
antes de consultar o livro,
escrever sua própria verdade
antes de considerar
as que nos são vendidas?
Quem ousa se ouvir por dentro
e, obedecendo seu próprio pensamento,
ser teimoso até as últimas conseqüências?
Deixar-se pendurar na cruz,
mas não desistir de sua missão?
Quem ousa caminhar sozinho
se o seu rumo pede outro caminho?
Fazer-se queimar, morrer na fogueira,
mas não abrir mão da sua poesia?
Quem ousa ser pobre e, pela estrada,
nada carregar, nada tendo a perder,
a não ser o medo?
Quem ousa tirar as viseiras
e se deixar guiar pela paixão,
jogar tudo numa só rodada
e viver, em cada agora, a vida inteira?
Este que assim ousar,
santo, heroi, mártir ou insano,
este merecerá o nome de homem,
de ser humano.
Os demais, os comuns, os restantes
seremos eu.
wy*
October 29
Noite feita, aqui no sítio.
Sento-me na escada da porta
e me abandono no alto
porque meus olhos
têm sede de estrelas.
A Via Láctea começa
no quintal de minha casa.
No cosmo sem dimensões,
a Terra é só um grão de poeira sideral
e, nela, o ser humano perdido,
é um micróbio que, de tão pequeno,
é mínimo e invisível.
Faço parte do infinito,
mas sou partícula tão ínfima, tão nada
que até me pergunto se realmente existo!
( wy)
October 23

No universo, a Terra
é só um pequeno vaso
que, às vezes, ao acaso,
a chuva molha demais.
Neste vaso, plantados,
você e eu, somos sementes
feitas de carne por fora
e de sonhos, internamente.
A Terra é um pequeno vaso
onde fomos plantados.
O que nele vai brotar e ser,
a semente ainda não sabe.
wy*
October 20
marco amado
augusto marco
da nossa estrada
cadê você?
a cada dia que passa
a sua falta
invade o mundo
que nos rodeia
os amigos chegaram
para o aniversário
e perguntaram
cadê você?
o que faz a vida ser vida
é que o impossível
possa agora acontecer
quem sabe hoje, de repente,
você resolva aparecer...
marco amado
augusto marco
da nossa estrada
cadê você?
a vida, por enquanto,
é um grande mistério
não sei onde você está
mas também nós
não sei onde estamos
wy*
O horizonte é lá de onde meus olhos não podem passar, mas é, também, de onde partem meus pensamentos. O horizonte, porém, é uma linha fina que um dia arrebenta. E então, os olhos escapam por uma estrada que não tem ponto nem parada. Fogem nas asas do pensamento. wy* October 02
sigo por este caminho cheio de sol
o vento me sopra e me balança
como se minha alma fosse lençol
estendido no varal
o vento vai e volta e sopra sem parar
me agita e puxa,
do arame tenta me arrancar
a minha alma é feita
de um tecido leve, feita de algodão,
e, mesmo presa por um fio,
o vento a faz levantar,
mas do meu corpo se desgarra não
bem outro e diferente,
o meu pensamento é feito de ar
que o vento leva e faz voar
sem varal para segurar
wy
September 24
O último e-mail
Era um moço que não deu certo. Por culpa de seu sonho, vivera sem perceber o chão que seus pés pisavam. Vivia nas nuvens, é o que a família dizia. Rapaz quase sempre calado. Mas quando o assunto era ela, tornava-se inesgotável. Eu o conheci ainda menino. Tornei-me seu melhor amigo por haver aceito, certo dia, levar um recado dele àquela menina que sentava na primeira fila e era sempre a primeira da classe. Num gesto ousado, ele a convidara para ser da sua equipe. Nem me lembro o que ela respondeu. Nesta época, já me falava dela. E falava com água na boca como fosse ela o melhor doce que havia no mundo.
Era fácil resumir sua vida e contá-la em poucas palavras. Ele a amara. Ponto. Em tudo que fez, ela foi o centro, o motivo e causa. A escola era um lugar aonde ele ia para poder vê-la. Depois arranjou aquele trabalho na padaria para poder atendê-la quase todos os dias. Na faculdade, entrou para o Diretório Acadêmico só porque, ela, que era da Diretoria, pediu-lhe ajuda para divulgação de um evento estudantil. O tempo todo era ela que ele respirava e vivia. Mais de uma vez eu o aconselhei. Amor é amor, isso é doença. Insisti para que olhasse para os outros lados. Havia outras meninas na cidade. Geralmente, nestas ocasiões, ele me ouvia calado, talvez pensando nela. Numa dessas vezes, (nunca me esqueço disso), me olhou nos olhos e falou: ---- Se você não me compreende é porque nunca amou alguém.
A vida é para ser vivida da melhor maneira possível. Mas seremos tão livres a ponto de decidir como ela será gasta? Alguns fazem tudo certo e se tornam pessoas de sucesso. Outros consomem seus dias na febre de uma grande e incontrolável paixão. Jogam fora suas chances, seus bens e, se necessário, de bom grado, escolhem a dor. Mas, seremos livres a ponto de decidir o que fazer da vida que nos é dada? A resposta eu não sei. O que sei mesmo é que meu amigo apaixonado nunca perdeu tempo com esta pergunta.
Hoje procuro me lembrar de quando estiveram juntos pela primeira vez. Ela era uma daquelas na lista das pessoas que fazem tudo certo e se dão bem na vida. O único atributo dele é que ele a amava. Só isso fizera na sua vida breve. E ela, assim como eu, talvez ainda não soubesse o que isso significava. Ela, mesmo sendo, ainda não sabia o que era ser a vida de alguém. Aliás, as pessoas muito amadas, geralmente, são egocêntricas, acomodadas e distraídas.
Lembro-me daquele dia. Telefonou-me para ir ao hospital levando o computador. Fui. Conhecia seu drama. Há tempos definhava. Nascera com um problema congênito no coração. Os médicos apontavam um transplante como solução. Ele sempre recusou. Preferia a morte. A caminho do hospital fiquei curioso. Por que o computador?
Cheguei. Seu estado era lastimável. Tivera uma complicação séria. Vivia seus últimos dias, talvez seus derradeiros momentos. Animou-se quando me viu.
----- Conecte-se, foi a primeira coisa que me falou. Enquanto ligava o computador, ele, com voz sumida, me explicou: Enviei um e-mail para ela e pedi que me responda, com sinceridade, se me amou de verdade. Veja lá se respondeu. E me passou sua senha.
Acessei sua caixa de entrada e lá estava a resposta dela. Porém, não quis que eu a abrisse. Insistiu para que eu a deixasse assim, por abrir, na tela, bem na sua frente. Perguntou-me o que eu achava. Ela, sempre sincera, responderia que o amava? Lembrei-lhe que a resposta poderia vir num clic. Mas ele, definitivamente, não quis. Disse-me que, naquele momento, a possibilidade de ela ter-lhe respondido sim era tudo o que ele tinha na vida. A mensagem dela, ainda não aberta, ele a podia ler como quisesse. Era uma semente. E ele tinha o direito de imaginar, saindo desta semente, a árvore que ele desejasse.
Voltei para casa, à noite, deixando sobre o móvel de cabeceira, o computador conectado, a mensagem por abrir na tela voltada para o meu amigo que, deitado de lado, não tirava os olhos dela. O horário de visitas terminou. Deixei-o ali, entre moribundo e absorto.
No dia seguinte, bem cedo, voltei ao seu quarto. Lá estava ele na mesma posição. Entre seus dedos gelados e enrijecidos, o mouse. Na tela, a resposta sem abrir. E assim ficou. Eu mesmo a deletei. Antes de partir, ele me ensinou que a esperança vale mais que a verdade.
(Wanderley Navarro)
September 23
Garimpo diamantes
nas águas da tempestade.
Ergo bem alto minha bateia
esperando que eles caiam do céu.
Este aguaceiro me afoga
mas não me mata a sede.
Os relâmpagos faíscam
e os trovões explodem
as minas dágua.
Garimpo verdades
no furor da tempestade
e, no curto clarão do raio,
procuro o norte do mundo.
No tempo, então saio
e deixo que a chuva me lave
e me salve de toda impureza
para, ao final, ver o que resta.
Nas águas da tempestade,
garimpo a mim mesmo.
wy*
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